Sobre a virtude da lentidão

por JOÃO CARLOS SALLES

19 SET Rio de Janeiro
20 SET Belo Horizonte
21 SET São Paulo

Wittgenstein representa uma espécie de conservadorismo. Para começar, não se sentia um homem de seu próprio tempo, mas sim de um tempo pretéri­to, marcado por outro ritmo, outra cultura, já desaparecida. A civilização ociden­tal caracterizar-se-ia pela palavra ‘progresso’, de sorte que o progresso seria sua forma, seu norte, sua medida, ocupando-se sempre em construir e tudo subordi­nando a isso. Como alguém de outro tempo, o espírito da civilização europeia e americana (cujas expressões, afirma em 1930, eram “a indústria, arquitetura, música, o fascismo e o socialismo de nosso tempo”) lhe pareceria de todo estranho e nada simpático.1 Mais então que deslocado o indivíduo, seu olhar é extemporâneo, sim­plesmente porque filósofo, cultivando objetivos e maneira de pensar diferentes da­queles do cientista. E, com isso, multiplicam-se as tensões.

No Tractatus, colocara-se a tarefa de demarcação do campo do significativo, do que poderia afinal ser dito, sendo esse o campo mesmo da ciência, das proposições tí­picas desse empreendimento humano comprometido com as transformações, com a velocidade, com a intervenção na natureza. Tudo levaria a crer em uma conso­nância de espírito, por exemplo, com o Círculo de Viena, que tanto irá influenciar e cuja marca característica seria um desmedido otimismo com o progresso e a ci­ência. Não obstante essa semelhança de família, o pessimismo de Wittgenstein já aparece como um traço quase indelével. Por exemplo, tendo realizado tal tarefa de demarcação, e de maneira “intocável e definitiva”, identifica em seu pleno sucesso o mais puro malogro, a negatividade mesma do trabalho da filosofia – que, bem compreendido, nos mostraria como importa pouco esse feito e como, enfim, mes­mo com a resposta da ciência a todas as questões possíveis, os problemas de vida não teriam sido sequer tocados.

Negatividade, conservadorismo, pessimismo. A filosofia, deixando as coisas como es­tão, conjuga-se mal com a ciência, que, marcada por nossa era, tudo pretende trans­formar. Ambas teriam tempos distintos, amadureceriam em momentos diversos. Fútil, perigosa e apressada, a ciência amadureceria cedo, enquanto a filosofia jamais deveria amadurecer por completo, a não ser mediante alguma resposta negativa. Em filosofia, cabe permanecer, demorar-se, não passar correndo por seus objetivos.2 Primeiro, problemas filosóficos podem até ser dissolvidos, mas não precisamos para isso de mais experiência, não dependendo nossa clareza de novos fatos. Não crescemos em direção à periferia, mas sim, por absurdo, em direção ao centro. E aqui os dados da ciência, suas conquistas, mesmo bem-vindos, não nos trazem respostas, mas sim novos exemplos.3 Segundo, a filosofia não parece comportar progresso. Afinal, enquanto certos “erros” de linguagem se repetirem e continuarmos volta e meia a usar indis­tintamente verbos distintos, enquanto houver adjetivos como ‘idêntico’, ‘verdadeiro’, ‘falso’, ‘possível’ e ainda utilizarmos imagens espaciais para o tempo ou quantitativas para a qualidade, enigmas gramaticais nos farão renascer em meio a fragmentos de filosofia, qual gregos ou alemães.4 E, devido a razões assim, de natureza essencial, a conjugação entre o progresso científico e a “preguiça” filosófica envolveria uma impos­sibilidade lógica e também uma insensatez política.

Filosofia e ciência trilham, pois, caminhos opostos, ao menos no que se refere a sua aderência ao progresso e à civilização, que, todavia, fornecem a ambas um contexto e uma limitação, servindo-lhes como pedra de toque para o sentido de suas posições. Queremos assim, em nossa palestra, investigar em que medida o explícito conservado­rismo de Wittgenstein, ao confrontar-se com a civilização ocidental, com as trevas de nosso tempo, com o americanismo e suas medidas, pode ser visto como um essencial e necessário exercício de crítica filosófica, para a qual não é absurdo pensar a idéia de progresso como uma grande armadilha.5 Dessa forma, em meio a sua negatividade, podemos bem simpatizar com seu desinteresse pela simples construção, reconhecen­do ser preferível a visão cristalina dos fundamentos de construções possíveis.6 Talvez então possamos nos situar entre aqueles poucos leitores cujo espírito seria simpático à sua resistência extemporânea – os únicos, diz ele, que o entenderiam. Leitores que, contrários à tônica de nossa civilização, resistem à urgência de nossas instituições e, com Wittgenstein, sabem que, “na corrida da filosofia, vence quem consegue correr mais devagar. Ou quem chega por último”.7


1 Cf. Wittgenstein, Culture and Value, p. 6
2 Cf. Wittgenstein, MS 162, p. 44r.
3 Cf. Wittgenstein, MS 130, p. 36.
4 Cf. Wittgenstein, TS 213, p. 424.
5 Cf. Wittgenstein, Culture and value, p. 56.
6 Cf. Wittgenstein, Culture and value, p. 7.
7 Wittgenstein, MS 121, p. 36r.

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